Todo tratamento tem riscos, bem como benefícios. O melhor tratamento para você pode ser diferente do melhor tratamento para o seu amigo ou vizinho. Todos temos necessidades individuais, e as coisas que importam para cada um de nós são diferentes.

Pesquisas sugerem que, se você participar da decisão sobre qual tratamento que você terá, você provavelmente se recuperará mais rapidamente do que se você não tomar parte nas decisões. [1] É ainda mais importante desempenhar um papel ativo quando os médicos não sabem qual tratamento funciona melhor.

Os médicos devem basear suas recomendações de tratamento no que as pesquisas dizem. Isso se chama praticar medicina baseada em evidências. Essa é uma boa maneira de praticar medicina, porque isso significa que seu médico está utilizando evidências de estudos clínicos que examinaram o que acontece com muitos milhares de pessoas que têm a sua doença.

Pontos-chave para lembrar ao escolher tratamentos

  • Examine todas as opções de tratamento.
  • Certifique-se de que você entende os riscos e benefícios dos tratamentos.
  • Certifique-se de que você entende como os riscos e os benefícios irão afetá-lo pessoalmente.
  • Verifique se que você tem informações suficientes para fazer uma escolha.
  • Certifique-se de que você entende os riscos e benefícios de tomar a decisão de não receber o tratamento.

Você e seu médico devem conversar sobre suas opções de tratamento e tomarem uma decisão juntos sobre o melhor tratamento para você. Isso se chama tomada de decisão compartilhada.

Há várias perguntas que você deve fazer antes de decidir sobre qualquer tratamento.

Quão envolvido eu quero estar na tomada de decisões sobre o tratamento?

Pesquisas mostram que algumas pessoas querem tomar parte em decidir qual tratamento terão. [2] Outras não querem se envolver de forma alguma. Mas os médicos muitas vezes sugerem um tipo de tratamento quando seus pacientes preferem outro. [2] Seu médico pode nem sempre saber o que é importante para você.

Explorar plenamente os riscos e benefícios do tratamento pode ajudá-lo a decidir o que é mais importante para você, então você pode tomar uma decisão esclarecida.

O que acontecerá se eu não receber tratamento?

Muitos problemas de saúde comuns, como resfriados ou dores de cabeça, desaparecem por conta própria. Mas alguns problemas de saúde podem piorar se você não receber tratamento, tais como o diabetes e a pressão alta. Você pode perguntar ao seu médico o que vai acontecer se você não receber tratamento mas, às vezes, seu médico não saberá o que vai acontecer.

Quais são as minhas escolhas de tratamento?

Verifique todas as suas opções

Seu médico pode sugerir que você faça alterações ao seu estilo de vida antes de tentar um medicamento ou outro tratamento. Mudanças de estilo de vida são coisas como se exercitar mais, se alimentar de forma mais saudável e parar de fumar.

Se você fizer mudanças em seu estilo de vida, você pode ser capaz de evitar tomar medicamentos ou precisar de outro tratamento. Por exemplo, exercitar-se mais frequentemente e reduzir o álcool que você bebe pode ajudar a baixar a pressão arterial. Mas se você não quiser se exercitar, é melhor ser honesto consigo mesmo e com seu médico, pois você pode precisar de medicação antes. Pode haver vários tratamentos diferentes disponíveis. Se o seu médico prescrever um tratamento, pergunte se existem outros. Uma cirurgia é uma possibilidade?

Existem outros tratamentos além de medicamentos ou cirurgia? Você pode ser capaz de experimentar tratamentos como fisioterapia ou acupuntura. É bom saber sobre todos os tratamentos que podem funcionar. Isto irá ajudá-lo a escolher o tratamento que é melhor para você.

Ouça outras pessoas

Você pode também querer ouvir o que outras pessoas com a sua doença optaram por fazer e como tem sido a experiência delas. Mas lembre-se que só porque algo não deu certo para um amigo não significa que não vai funcionar para você.

Quais são os riscos e benefícios de cada tratamento?

Tratamentos podem ter tanto riscos como benefícios. Mesmo a aspirina e o paracetamol podem ter efeitos colaterais. Você sempre precisa ponderar os possíveis benefícios em relação aos possíveis riscos.

Às vezes, efeitos colaterais não aparecem em estudos de pesquisa e só os descobrimos anos após a disponibilização de um medicamento. Mesmo tratamentos complementares ou alternativos (tais como fitoterápicos ou vitaminas) podem ser prejudiciais. Só porque algo é 'natural' não significa necessariamente que é seguro.

Qual é o equilíbrio entre riscos e benefícios para mim?

Quando um tratamento tem benefícios e riscos possíveis, o que importa é se você acha que os benefícios superam o risco de quaisquer efeitos colaterais. Cada pessoa é diferente. Você precisa decidir quais benefícios e riscos são importantes para você.

Seguem aqui algumas coisas a considerar:

  • Em sua situação pessoal: o tratamento tem efeitos colaterais com os quais você terá dificuldade em conviver? Por exemplo, talvez você tenha filhos pequenos e não possa tomar comprimidos que causem sonolência.
  • Como você deve tomar o medicamento: talvez você não goste de tomar comprimidos e prefira usar um adesivo de pele.
  • Suas preferências de tratamento e o que você espera dele: você acharia difícil conviver com o risco de efeitos colaterais graves, mesmo que o risco seja pequeno? Você consideraria insuportável perder os cabelos, mesmo que o tratamento tenha aumentado suas chances de permanecer vivo? Qual ´é a coisa mais importante que você quer que o tratamento faça? Se você tem insuficiência cardíaca, por exemplo, o que é mais importante para você: respirar mais facilmente durante a noite ou ter menos inchaço nos seus tornozelos?
  • Como lidar com efeitos colaterais: se você tem hipertensão arterial, por exemplo, você pode decidir que pode suportar a tosse seca irritante causada por alguns medicamentos. Para você, o benefício do tratamento (reduzir o seu risco de doença cardíaca e de ter um acidente vascular cerebral) pode sobrepor-se ao efeito colateral (a tosse). Mas muitas pessoas com hipertensão arterial não se sentem doentes. Pode ser mais difícil suportar efeitos colaterais de medicamentos quando você não se sente doente. Por exemplo, se você se sente bem, mas seus comprimidos lhe causam tontura, você pode não querer aguentar esse efeito colateral. Mas se você tem uma infecção torácica, você poderá aguentar a diarreia causada pelos antibióticos que estiver tomando. Você deve conversar com seu médico antes de parar de tomar qualquer medicamento. Às vezes, um outro tratamento pode funcionar tão bem quanto e ter menos efeitos colaterais.
  • Quão grande poderá ser o benefício: tratamentos nem sempre te curam. Você pode decidir que não vale a pena tomar um medicamento porque o benefício possível não é suficientemente grande. Você precisa se certificar de que entendeu completamente o que é o benefício de um tratamento antes de parar com ele. Se tiver hipertensão arterial, você pode achar que os comprimidos que você toma todos os dias são uma perda de tempo. Mas se parar de tomá-los, você pode aumentar o risco de ter um acidente vascular cerebral ou um ataque cardíaco.
  • Sua idade: se você tem 40 anos e seu quadril dói sempre em decorrência da osteoartrite, convém ponderar os benefícios e os riscos de ter seu quadril substituído. Ao se submeter a uma artroplastia de quadril, sua dor desaparecerá e você poderá se locomover melhor. Você não terá que tomar analgésicos o tempo todo. Mas seu quadril artificial pode precisar ser substituído depois de 10 a 20 anos, pois ele pode se desgastar. Também é necessário ponderar os riscos da cirurgia.
  • Sua atividade sexual: você pode decidir que os efeitos colaterais que interferem com sua habilidade para fazer sexo são especialmente preocupantes para você. Se assim for, certifique-se de perguntar ao seu médico sobre qualquer efeito colateral sexual do tratamento. Se você é um homem, é possível que perceba que alguns medicamentos interferem em suas ereções. Você também corre o risco de ter problemas de ereção ou incontinência após algumas cirurgias, tais como cirurgias para câncer de próstata. (Incontinência é o termo que os médicos usam quando uma pessoa nem sempre consegue segurar a vontade de urinar.) Seu médico deve ser capaz de conversar livremente sobre questões sexuais com você. Você certamente tem o direito de discuti-las.

Eu sei o suficiente para tomar uma decisão?

Para tomar decisões esclarecidas sobre riscos e benefícios, você precisa de informações confiáveis sobre quão provável é um benefício ou um efeito colateral para você.

Se o seu médico fizer declarações vagas como, "os riscos dessa cirurgia são pequenos", então você provavelmente precisa de mais informações. Há uma chance de 1 em 100 de a cirurgia causar um acidente vascular cerebral ou uma chance de 1 em 1000? O que seu médico considera um risco aceitável e pequeno pode ser inaceitável para você.

A maneira com que as estatísticas são descritas para você podem fazer a diferença em relação à forma como se sente em relação a elas. Se lhe disserem que um tratamento vai cortar o risco de ter um acidente vascular cerebral em 50 por cento (o que os médicos chamam uma redução no risco relativo), isso pode soar ótimo para você. Mas se essa redução de 50 por cento na verdade cortar seu risco de ter um acidente vascular cerebral durante os próximos cinco anos de 2% para 1% (uma redução no risco absoluto), a premissa passa a não parecer tão excelente.

Da mesma forma, ouvir que o uso de um medicamento duplica o risco de desenvolvimento de leucemia em 20 anos pode parecer assustador. Mas se o seu risco de contrair leucemia for pequeno inicialmente (digamos, uma chance de 2 em 100,000), então mesmo que o risco seja dobrado, ainda é muito pequeno (4 em 100,000). No entanto, se você estiver preocupado com qualquer risco de contrair leucemia, mesmo esse risco pode ser alto demais para você.

Como posso tomar uma decisão?

Vamos examinar um exemplo. Digamos que você é uma mulher de 50 anos de idade e encontra um nódulo em sua mama. O nódulo é do tamanho de uma cereja.

Sua mamografia (uma radiografia do seio) mostra que algo não está normal. Você se submete a uma biópsia por agulha (na qual uma agulha fina é inserida em seu nódulo para remoção de algumas células). A biópsia mostra que você tem câncer de mama.

Ao decidir sobre o tratamento, aqui estão algumas das perguntas que você pode fazer.

O que acontecerá se eu não fizer o tratamento?

Existem apenas poucos estudos que mostram o que acontece se você não tiver tratamento para câncer de mama. Não seria ético para um médico não fazer nada por uma mulher com câncer de mama, porque há evidências suficientes para sugerir que o câncer vai ficar maior.

Quais são minhas escolhas de tratamento?

 As principais opções de tratamento são a remoção do seio ou a remoção do câncer, deixando a maior parte do tecido mamário normal por trás. A remoção do seio é chamada de mastectomia. O outro tipo de cirurgia é chamado de cirurgia conservadora da mama.

Após a cirurgia, existem outras opções de tratamento a considerar, dependendo se o câncer de mama tiver se espalhado para os nódulos linfáticos na sua axila. Além disso, se você se submeter à cirurgia conservadora da mama, pode ser necessária radioterapia depois.

Quais são os riscos e benefícios de cada tratamento?

A remoção do seio inteiro é uma forma mais eficaz de se livrar de todo o câncer do que apenas remover o nódulo? Não é uma pergunta fácil de se responder, e isso pode depender do indivíduo. Todos os tipos de cirurgia também acarretam um risco de complicações. Então quão grande é esse risco, e quais são as possíveis complicações?

A equipe que estiver lhe tratando será capaz de responder a estas perguntas. Mas o tratamento que você escolher não será baseado apenas em estatísticas, evidências e o que é certo para outras pessoas.

Qual é o equilíbrio entre os riscos e benefícios para mim?

O tratamento que você escolher para o câncer de mama refletirá seus próprios valores - como se sente sobre a cirurgia e sobre seu corpo, e quanto tratamento está preparada para receber. Você provavelmente estará interessada nos riscos e benefícios, pois eles afetam a maioria das pessoas. Mas você estará fazendo uma escolha que afeta você.

Você pode falar com seu médico e enfermeiro-especialista sobre a cirurgia. Você também pode querer conversar com outras mulheres que tiverem passado por cirurgias para câncer de mama. Eles podem ajudar na sua tomada de decisão.

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Referências

  1. Arora NK. McHorney CA Patient preferences for medical decision making: who really wants to participate? Medical Care. 38(3):335-41, 2000
  2. Deber RB, Kraetschmer N, Irvine J. What role do patients wish to play in treatment decision making? Archives of Internal Medicine. 1996; 156: 1414-1420.